Quando insistir ou desistir de um relacionamento?

Entrevista de Sergio Savian para o Portal UOL Mulher

Por que pode ser tão difícil enxergar se uma relação vale a pena ou não de levar adiante?
Quando conhecemos alguém e o elegemos como “o ser amado”, passamos a nos relacionar não só com ele, de carne e osso, mas também com uma imagem que criamos dele dentro de nós. Esta imagem mistura características do que ele realmente é e daquilo que precisamos que ele seja. Esta imagem se alimenta da presença física dele , mas tem como base nossas carências infantis. Quando o “amado real” se distancia da imagem e da expectativa  que criamos dele, sofremos e ficamos confusos. Não sabemos mais se vale a pena ou não continuar com a relação, o que nos traz muita angústia.

Diante da dúvida entre insistir e desistir de um relacionamento amoroso, o que deve ser considerado?
O que devemos levar em conta é a quantidade de sofrimento que a relação está nos causando. Pode ser que o amado esteja contribuindo bastante para isso, na medida em que ele não é claro, não se compromete, não é o que você espera ou lhe trata mal. Mas também existe a possibilidade de ser você mesmo o agente da própria perturbação. Para entender o que está acontecendo, vale a pena passar por um bom trabalho de autoconhecimento, por uma análise, que vai lhe ajudar a ter mais discernimento e, a partir dai, encaminhar sua vida da melhor maneira.

Para valer a pena insistir, o que a relação precisa apresentar? Só ter amor é suficiente?
E quando é o momento de desistir?

Se a situação está difícil, complicada, só vale a pena continuar se houver a possibilidade de mudanças internas ou externas, quer sejam de atitudes ou de ponto de vista. A maneira com que amamos obedece a padrões que adquirimos em nossa infância, a partir das relações com nossa família original. Estes padrões podem estar contaminados de muita neurose e por isso podem não ser confiáveis. Continuar ou desistir da relação tem a ver com a capacidade de conviver e administrar conflitos, e isto é uma característica de cada indivíduo.

Quais perguntas a pessoa precisa se fazer para chegar a essa conclusão?
Pergunte-se:
Qual a minha responsabilidade, a minha participação nessa história toda?
Será que eu não venho repetindo o mesmo padrão nas minhas relações no decorrer da vida?
Quais são as minhas expectativas para esta relação?
Estas expectativas são viáveis? Podem ser realizadas?
Será que eu idealizei o outro e a relação de uma forma irreal?
Será que eu quero conviver intimamente com uma pessoa tão diferente daquilo que eu espero dela?
Será que ela tem condições de mudar?
Será que esta relação tem capacidade de mudar?
Estou eu e o outro empenhados em obter mais clareza de si e da relação?
Estamos conversando o suficiente sobre nós mesmos e nossas expectativas?
Temos capacidade de negociar a relação?
Conseguimos nos colocar na pele do outro ou tudo deve ser conforme a vontade de um dos dois?

Como reconhecer se um obstáculo é desafio – e pode ser vencido – e quando sinaliza que é hora de parar e recomeçar em outra direção?
A partir das perguntas acima você tem um bom diagnóstico sobre a possibilidade de ir ou não para frente com a relação. As relações só podem ter boa qualidade se ambos os parceiros se propuserem a olhar para si mesmo, reconhecer o que realmente desejam e além disso, saibam expressar com clareza para o outro o que pretendem. Sem isto, a tendência é viver ao meio de muita confusão.

Entre o insistir e o desistir há alguma outra possibilidade no meio?
Sim. A possibilidade é negociar. Para tanto é preciso que cada um dos dois saiba de si, se suas verdadeiras intenções e consiga praticar o “não positivo”, um não que pontua o que é bom ou não para si, que estabelece um contrato viável, bom para ambos os parceiros, que não penda somente para um dos lados.

E qual a orientação para a pessoa não encarar a desistência como uma derrota ou incapacidade? Há o lado bom em desistir?
Há um lado bom em desistir. Depois de se questionar muito, e isto significa que você não coloca a culpa somente no outro, depois de ter bastante paciência com o próprio processo de amadurecimento, com outro e com a relação, depois disso tudo, se você constata que nada vai mudar e que você está infeliz, desistir é uma questão de auto-estima. Você pode se sentir bastante aliviado, de bem consigo mesmo. Mesmo assim, a desistência implicará em um luto da relação, da perda; afinal de contas, você terá de abrir mão de seus sonhos e isso sempre dói.

Sergio Savian é psicoterapeuta especializado em relacionamentos. Saiba mais sobre seu trabalho no site www.sergiosavian.com.br