Paixão: eu preciso desejar alguém para me sentir vivo

Fragmentos de textos extraídos do Livro da dor e do amor, de J.D.Nasio

O desejo dá sentido à vida.

Eu elejo uma pessoa que funciona como um canalizador das forças do meu desejo, dono do compasso imposto ao meu desejo, mas que restringe o meu gozo. Com esta pessoa que me excita, estabeleço um ritmo de presença, mas ao mesmo tempo me deixa insatisfeito.

O corpo do outro se duplica por uma imagem  interiorizada. Esta imagem do outro que tenho no meu inconsciente só brilhará com todo o seu resplendor se estiver apoiada no corpo vivo do amado. Esta imagem reflete afetos que tenho em mim: de amor e ódio, de submissão e de dependência, afetos que provocam a minha angústia.

Ao elegermos um objeto para o nosso amor nos baseamos em alguns ideais: – meu eleito deve ser único e insubstituível; – deve permanecer invariável, não mudar nunca, ao menos que nós próprios o mudemos; – deve sobreviver, inalterável, à paixão do nosso amor devorador ou do nosso ódio destruidor; – deve depender do nosso amor, deixar-se possuir e mostrar-se sempre disponível para satisfazer nossos caprichos; – mas, mesmo submisso, deve saber conservar a sua autonomia, para não nos estorvar…. São ideais comparáveis aos que guiam a criança pequena com o seu objeto transicional (cobertorzino, paninho, etc), que caracterizam a neurose do amante. Expectativas tão exageradas só podem acentuar o afastamento entre a satisfação sonhada do desejo e a sua insatisfação efetiva.

Ele não é apenas uma pessoa, mas uma fantasia construída, fonte de excitação do nosso desejo e objeto das nossa projeções imaginárias.

Quanto maior o amor maior a dor. O amado é uma parte de nós mesmos. A fantasia de um e do outro é uma construção psíquica que se ergue invisível no espaço intermediário entre os dois e repousa sobre as bases que são os corpos vivos dos parceiros. Ao perder a pessoa do eleito, a fantasia se abate e desaba como uma construção à qual se retira um dos pilares. É então que a dor aparece.

O que perdemos quando perdemos a pessoa que amamos? Perdemos o corpo vivo do outro, uma das fontes que alimenta a força do desejo, perdemos uma fonte de alimento, o objeto de nossas projeções imaginárias e o ritmo do desejo comum. Perdemos a coesão e a textura de uma fantasia indispensável à nossa estrutura.

Não é a ausência do outro que dói, mas os efeitos em mim desta ausência. Não sofro com a falta do outro, sofro porque  a força do meu desejo fica privada do que a excita, da sensibilidade do seu corpo vivo significante para mim. O ritmo simbólico dessa força fica quebrado, porque o espelho psíquico que refletia as minhas imagens desmoronou. A dor psíquica não é pois pelo desaparecimento físico do ser amado, mas pelo transtorno interno gerado pela desarticulação da fantasia do amado. É a dor como reação à perda do objeto amado.

Se perdemos a pessoa do eleito, a fantasia se desfaz e o sujeito fica então abandonado, sem recurso, a uma tensão extrema do desejo, um desejo sem fantasia sobre o qual se apoiar, um desejo errante e sem eixo.  A fonte da dor psíquica não está no acontecimento exterior de uma perda factual, mas no confronto do sujeito com seu próprio interior transformado. A dor é uma desgraça que se impõe inexoravelmente a mim quando descubro que o meu desejo é um desejo nu, louco e sem objeto.

A dor exprime o encontro brutal e imediato entre o sujeito e o seu próprio desejo enlouquecido.

É neste instante de intensa movimentação pulsional que, em desespero de causa, nosso eu tenta salvar a unidade de uma fantasia que desmorona, concentrando toda a energia de que dispõe sobre uma parcela da imagem do outro desaparecido, fragmento de imagem que se tornará supersaturada de afeto. A dor, nascida de um desejo tumultuado, ao invés de reduzir-se, se intensifica. Começado o trabalho de luto, a imagem do desaparecido diminui e a dor que se ligava a ele se atenua, pouco a pouco.

A dor psíquica é a desorientação que sentimos quando, tendo perdido um ente querido, nós nos encontramos diante da mais extrema tensão interna, confrontados com um desejo louco no interior de nós mesmos, com uma espécie de loucura do interior que fica adormecida em nós, até que uma perda exterior venha arrancar os seus gritos de desespero.

Gostamos do nosso corpo como o outro mais amado. A amputação de uma perna causa a dor atroz interior como quem perde  o ser mais caro. Essa perda exige um verdadeiro trabalho de luto, que nos ensinará a amar o novo corpo desprovido de perna.