É POSSÍVEL SUPERAR UMA TRAIÇÃO?

Entrevista de Sergio Savian* para a Revista Pense Leve

É possível superar uma traição?
Sim, é totalmente possível. Tudo depende da estrutura psíquica do indivíduo e isso está relacionado à moral, mais ou menos rígida; à auto-estima; ao autoconhecimento; às crenças etc.  Algumas pessoas, de personalidade mais frágil, não suportam a ideia de serem traídos; outros, de personalidade mais forte, passam por isto sem tanto sofrimento.

Essa superação é um processo longo? Sempre é muito doloroso?   
Não é fácil saber que seu amado está ou esteve com outra pessoa. O mais comum é ficar com raiva, com medo de perder ou muitas vezes até com ódio. Mas todos estes sentimentos podem ser passageiros, dependendo da capacidade que cada um tem para compreendê-los. Quanto mais rígida a personalidade, mais sofrido e demorado é o processo.

Existem etapas para essa superação?
Creio que sim. Pode passar por desconfiança, investigação, constatação, conversas tensas, compreensão do que aconteceu, perdão e até pela continuidade da relação. Mas nem sempre acontece desta forma e nesta ordem.

Traição indica que o amor acabou? Pode dar sinais de que o relacionamento está desgastado?
Não sei de onde se tirou a ideia de que amando uma pessoa você não consegue ficar com outra. Este é um conceito que não se verifica na prática, que mostra outra coisa. Você pode amar duas ou mais pessoas ao mesmo tempo, cada uma de uma maneira diferente. Você pode amar uma pessoa e fazer sexo com outra. Pode até amar uma pessoa e não ter nenhuma necessidade de estar com outra. Tudo é possível. O amor é selvagem e a gaiola não é seu habitat natural.

Perdoar ou não, qual é o melhor caminho?
Se você prefere ficar com seus conceitos rígidos ao invés de dar continuidade à relação, não perdoe. Mas, se você acredita que vale a pena continuar, perdoe.

Perdoar significa ter de conviver com insegurança? Quem perdoa consegue realmente esquecer? É importante saber lidar com as cobranças externas? É importante controlar o desejo de vingança?
Na verdade ninguém é dono de ninguém. Você ama alguém e, em algum momento, a pessoa morre. Você ama alguém e, em algum momento, a pessoa não lhe quer mais. Você ama alguém e, em algum momento, você mesmo se desinteressa. Além disso, é da natureza das relações que existam diferenças, e, por isso, em algum momento um pode ferir o outro. No amor nem sempre as coisas acontecem do jeito que você planejou. Você não tem o controle de tudo. E, se você não tiver jogo de cintura, também  não tem condições de levar o relacionamento adiante. Se você ama, perdoa.

E quem não perdoa, pode ter dificuldade em se relacionar novamente? Pode levar este trauma para outra relação? Isso é prejudicial?
O trauma começa na infância, com as faltas e inabilidades dos pais. Depois, os traumas se confirmam no complexo de Édipo, que é o triângulo amoroso entre pai, mãe e filho. Aí vem o aprendizado, nem sempre muito fácil, de compartilhar o amor dos pais com os irmãos. E mais tarde, todo este histórico vai se manifestar nas relações amorosas. Por isso, o trauma não advém somente da traição, mas é produto da formação de caráter de cada um.

Quais são os conselhos para quem opta por perdoar e manter a relação?
O único conselho que posso dar é: o passado é um verdadeiro trambolho. Se você quer ser feliz terá que aprender a deixar o passado no passado.

E quais são os conselhos para quem decide colocar ponto final no relacionamento?
Você pode colocar um ponto final nesta relação, mas isto não significa que o assunto estará bem resolvido dentro de você, tampouco em nossa sociedade hipócrita que promete a fidelidade e não a cumpre. Tente encontrar alguém que acredita e aja de forma coerente, tente encontrar um santo, alguém que não peque, o que é bem difícil de achar.

Homens e mulheres superam de forma diferente? Se sim, por quê? Qual a diferença?
Esta questão não depende de gênero, mas  sim da estrutura psíquica de cada um.

É possível evitar que a traição aconteça? Traição é sempre culpa do outro? Pode ajudar a reavaliar o relacionamento, as atitudes, a rotina, ou seja, é possível tirar algum ponto positivo de algo tão doloroso? 
É fácil culpar os outros, mais difícil é se entender. Nós estamos divididos, profundamente divididos. Preocupados com a imagem, com o que os outros vão achar, como os outros vão nos julgar, e menos atentos à própria verdade, muitas vezes desconhecida de nós mesmos. O reflexo disso, de não ser inteiro, de não ser total, é precisar de mais e mais pessoas para tentar nos satisfazer. Se alcançássemos a totalidade, o que exige muito autoconhecimento, quem sabe pudéssemos vivenciar relações sem tantas cobranças, sem tanta ansiedade, sem tanta insatisfação. Sendo assim, não precisaríamos trair, tampouco ficar preocupados com esta questão. Mas, para atingir este ponto, é preciso muito trabalho e consciência. Não vêm por decreto!

*Sergio Savian é psicanalista, especializado em relacionamentos. Saiba mais sobre seu trabalho no site www.sergiosavian.com.br