Dificuldade em estabelecer vínculos afetivos

Podemos dizer que as pessoas que não estabelecem vínculos afetivos têm uma dificuldade originada na formação de sua personalidade. Elas possuem mecanismos para se defender do envolvimento que lhes parece muito ameaçador. Em algum momentos de suas vidas deixaram de confiar nos outros. São pessoas que se isolam, não têm paciência para conviver com as diferenças, muitas vezes têm vida sexual ativa, sem aprofundar-se nas relações. Falta-lhes paciência, tolerância ou mesmo humildade para conviver com intimidade. Estas pessoas estão fixadas em uma posição narcisista, e isto significa que vivem na ilusão de se bastar, de não precisar dos outros. Muitas vezes são hipersensíveis e têm medo de se machucar. Noutras, falta sensibilidade para a convivência íntima. Muitas nem chegam a se apaixonar, tamanha a defesa; outras, apaixonam-se com bastante facilidade, mas não conseguem ir adiante com a relação. Acionam mecanismos de defesa para escapar da intimidade. Inventam desculpas, racionalizam, acusam os outros, ficam chatas e assim por diante. Os relacionamentos na vida adulta somente vem a confirmar as questões bem ou mal resolvidas que tivemos na vida infantil. Os relacionamentos atuais costumam acontecer como extensão das relações que tivemos com a família original. Uma criança que recebe amor, introjeta este sentimento, e na vida adulta, sente que tem muito a oferecer. Na relação com nossos familiares adquirimos hábitos comportamentais mais ou menos saudáveis. Ao analisarmos a história de alguém que não consegue se vincular afetivamente, encontraremos motivos que o fizeram se retrair. Na primeira infância, até os 4 ou 6 meses de idade, não temos condições de enxergar a mãe como um ser completo, com suas qualidades e defeitos. Temos a fantasia de que ela possui tudo o que precisamos. Com o passar do tempo, nos damos conta que a mesma mãe que nos alimenta e cuida, também nos falta. Devido à imensa dependência e vulnerabilidade, desenvolvemos uma ansiedade paranóica, fantasiando a perda da mãe. A partir do segundo semestre de vida já temos condições de perceber que a mãe não é perfeita e, dependendo da história, passamos a aceitá-la da forma que ela é. Pessoas que não conseguem se vincular são perfeccionistas, estão fixadas em uma posição infantil. Não entendem que ninguém é perfeito, nem mesmo os relacionamentos o são. A timidez, a dificuldade de se comunicar, de se expressar, o excesso de preocupação consigo mesmo, a incapacidade de ver o outro do jeito que ele é, tudo isso pode levar ao isolamento, mas não é só isso. Existem pessoas bem articuladas que também não se vinculam. Estas têm outros motivos. Por exemplo, não conseguem juntar numa só pessoa as características que procuram. Buscam por um ideal que não existe. É possível tratar a anorexia emocional por meio de uma boa análise, compreendendo a própria história e os fatores que o levaram a se defender tanto do amor. É possível mudar este padrão, experimentar as relações de outra forma, diferente daquela que aprendeu em sua formação. Confiança e entrega são fundamentais. Conviver e resolver com os conflitos, uma boa dose de generosidade, e principalmente o autoconhecimento, tudo isso conta. Boa parte das pessoas que me procuram apresentam esta questão. Os tempos atuais nos proporcionam muitas possibilidades de fuga, como é o caso do vício em internet, drogas, álcool, trabalho e outras compulsões que nos ocupam e desviam do contato com a realidade. Tudo isso nos afasta da intimidade com a gente mesmo e com os outros.

Sergio Savian – psicanalista especializado em relacionamentos