Considerações sobre a relação entre sogra e genro

(texto extraído do livro Totem e Tabu – Sigmund Freud)

… a relação entre sogra e genro é um dos aspectos difíceis da organização familiar. As relações afetivas entre os dois incluem componentes que se acham em aguda oposição entre si, feitas de impulsos conflitantes, ternos e hostis. Do lado da sogra, o desgosto em renunciar á posse da filha, a desconfiança para com o estranho ao qual ela é cedida, a tendência de afirmar uma posição dominante, à qual se acostumara em sua própria casa. Do lado do marido, a resolução em não se submeter mais a uma vontade alheia, o ci]ume de todas as pessoas que antes dele possuíram o afeto de sua mulher, e , por último, e não menos importante, a má vontade em permitir que algo interfira na ilusão da superestimação sexual. Tal interferência pode vir da sogra, na qual tantos traços lhe lembram a filha e que, no entanto, carece dos encantos juvenis, da beleza e do frescor psíquico, que para ele tornam preciosa sua mulher. … as necessidades psicossexuais da mulher devem ser satisfeitas no casamento e na vida familiar, mas ela é ameaçada pela insatisfação devida ao fim prematuro da relação conjugal e à ausência de acontecimentos na sua vida emocional. Ao envelhecer, uma mãe se protege disso mediante a empatia com seus filhos, a identificação com eles, ao tornar suas as vivências emocionais deles. Diz-se que os pais continuam jovens com seus filhos; esse é de fato, um dos preciosos ganhos psíquicos que os pais obtêm dos filhos. Na ausência destes, deixa de existir uma das melhores coisas para suportar a resignação que seu próprio casamento exige. tal empatia com a filha chega facilmente ao ponto de a mãe também se enamorar do homem amado por ela – algo que, em casos extremos, leva a graves formas de adoecimento neurótico, em consequência da forte luta psíquica contra esta disposição afetiva. Em todo caso, uma tendência a tal enamoramento não é nada rara na sogra, tampouco é raro que o componente hostil, sádico da excitação amorosa se volte para o genro, a fim de reprimir mais eficazmente o componente proibido, afetuoso. A relação do homem com sua sogra é complicada por impulsos semelhantes. Normalmente a via da escolha do objeto o conduziu a seu objeto amoroso através da imagem de sua mãe, talvez também de sua irmã. Devido à barreira do incesto, sua predileção moveu-se das duas pessoas queridas de sua infância para um objeto de fora, modelado a partir delas. O lugar de sua própria mãe e mãe de sua irmã é tomado por sua sogra. Seu horror ao incesto torna-lhe mais fácil a rejeição. Um elemento de irritabilidade e fastio nos faz supor que a sogra constitui realmente uma tentação incestuosa para o genro, assim como, por outro lado, não é raro um homem apaixonar-se ostensivamente pela futura sogra, antes de inclinar-se para a filha.