COMO ERA O NAMORO HÁ 50 ANOS E COMO ESTÁ AGORA?

1. Como era o namoro há 50 anos e como está agora? O que mudou da serenata ao Fabebook?
Há 50 anos o namoro tinha como objetivo o casamento e a formação da família. Havia uma ordem muito clara de que todos deveriam se casar e quem não o fizesse era muito mal visto. A ideia do amor era mais romântica, expressa nas músicas, nos roteiros dos filmes ou das novelas. O namoro de hoje nem sempre desemboca no casamento, é muito mais focado no prazer que no dever. Não se pode comparar o namoro de hoje e o de ontem em termos de compromisso. As relações, que se tornaram mais líquidas, passaram a serem expostas para os outros nas redes sociais. Tudo vira notícia. E a notícia passa a ser mais importante que a própria relação.

2. Antigamente as pessoas ficavam namorando e hoje namoram ficando? Há diferenças?
Ficar tem um significo mais sexual, talvez com menos compromisso, tampouco fidelidade. Você pode ficar com muitas pessoas ao mesmo tempo. E quando o encontro começa a exigir mais dos seus pares, quando começa a envolver mais afeto e inteligência para se relacionar, é comum mudar o canal e passar para outro. De ficar em ficar, aumenta o despreparo para qualquer tipo de aprofundamento.

3. O conceito de namorar e ficar mudou ao longo do tempo? Isso muda as relações entre os namorados ou pretendentes a namorados?
Não se usa mais a palavra promiscuidade, que caiu em desuso. Antigamente era preciso conhecer bem a outra pessoa para ter relações sexuais. Hoje o sexo não significa muita coisa. Você pode fazê-lo sem mesmo conhecer bem o outro. E como o sexo ficou mais fácil, acaba, muitas vezes, ocupando o lugar do afeto.

4. Que diferenças o senhor vê entre as antigas colunas de correspondência de jornais e revistas de antigamente e a aproximação amorosa na internet hoje?
Hoje tudo é mais rápido. Além disso, as redes sociais dão a impressão de que você tem milhares de opções e, por isso, aumenta o grau de exigência. Parece que, qualquer que seja a escolha feita, pode ser que haja alguém melhor, ou que não seja a escolha mais adequada. Mesmo quando você termina uma relação, é famosa a frase “A fila anda”, como se sempre houvesse uma fila de pretendentes. Neste sentido, se dá mais valor à quantidade do que à qualidade das relações.

5. Como o namoro dos jovens de ontem impactavam em seus relacionamentos duradouros e como o namoro dos jovens de hoje influenciam em seus relacionamentos?
Os relacionamentos antigos eram pautadas pela insistência, mesmo que a qualidade dos mesmo não fosse muito boa. Alguns sentiam-se condenados àquelas relações pois não havia outras possibilidades. Outros se dedicavam a construir um bom relacionamento, já que teriam que nele ficar para o resto da vida. Hoje não é assim. Ninguém se obriga a manter-se em uma relação que não funciona bem. Sendo assim, o pavio ficou mais curto, falta paciência, falta dedicação e profundidade para resolver conflitos. “Melhor mesmo é separar-se”.

6. Como o senhor avalia o comportamento dos jovens de hoje que namoram livremente na casa dos pais, viajam sozinhos e vivem uma vida de casal, embora continuem morando na casa dos pais?
Aumentou a liberdade sexual. A virgindade não é mais um tabu, tampouco as sexualuidades. A relação sexual é aprovada pela família. Os namoros de hoje podem ser mais saudáveis, com menos repressão e recalque sexual. Por outro, são muito jovens que se acomodam e perdem o interesse em levar sua própria vida, e desenvolvem a chamada personalidade “canguru”. Assim, deixam de crescer, permanecendo eternos adolescentes.

7. O aumento da liberdade dos jovens de hoje não foi acompanhado pelo aumento da responsabilidade. Quais são os efeitos desse fenômeno sobre o namoro hoje em dia?
Falta de responsabilidade, falta de compromisso, falta de perspectiva, acomodação, passividade, falta de contato com a realidade. Tudo isso leva o indivíduo à uma vida superficial, baseada em valores inconsistentes.

8. Quais as vantagens e desvantagens do namoro de ontem e do de hoje?
Antigamente as pessoas eram mais corajosas para o envolvimento, tinham mais consideração pelo outro, porém mas eram mais pautadas pelo que devia ser do que pelo que realmente queriam. Hoje se tem mais liberdade, mais autenticidade, porém menos comprometimento e menos crescimento pessoal.

9. A Aids mudou o namoro?
Em um primeiro momento a Aidas assustou as pessoas que passarem a se preservarem mais. No entanto, com os novos medicamentos, o uso do preservativo e a possibilidade de continuar vivo, apesar do HIV, as pessoas voltaram a transar muito, dentro ou fora do namoro. Surgiu também uma nova modalidade de comportamento: os assexuados, que dizem levar a vida muito bem sozinhos. Algo me diz que, por trás deste modo de viver, existe muito medo e falta de habilidade para se relacionar.

*Sergio Savian é psicanalista especializado em relacionamentos. Saiba mais sobre seu trabalho no site www.sergiosavian.com.br