A traição e a infidelidade na produção artística

Entrevista para a Revista da Livraria Cultura

É possível identificar mudanças com relação a maneira como a sociedade encara a traição e a infidelidade ao longo da história? Se sim, dê exemplos e indique momentos em que essas questão ganharam mais relevância.
Creio que a pergunta ficaria mais completa se você se referisse à sociedade ocidental, pois no oriente a questão da fidelidade tem parâmetros diferentes dos nossos. Aqui, no Ocidente, a fidelidade se tornou uma regra para garantir a paternidade e a certeza que a herança estaria indo para as mãos certas. Por isso, tamanha rigidez nesta ordem. Mas tudo isso foi perdendo o sentido na medida que a herança deixou de ser algo tão importante, e mesmo que em alguns casos ainda seja, é possível constatar o parentesco por meio de testes de DNA. A fidelidade, que sempre esteve associada à questão da posse, perde sua força conceitual na medida em que cresce a consciência de que ninguém é de ninguém. São muitas as influências atuais para a desconstrução da fidelidade. Uma delas, é o desenvolvimento das novas tecnologias de comunicação, que propõem uma gama cada vez maior de canais, permitindo que você  tenha à sua frente centenas de opções, podendo usá-las  todas ao mesmo tempo. Uma vez que você passe o dia inteiro pensando e agindo desta forma, acaba levando este mesmo raciocínio para as relações. Por último, a fidelidade perde sua força na medida em que o controle social diminui, particularmente nos grandes centros urbanos, onde você pode agir com muito mais autonomia. A traição, que é subproduto da fidelidade, também  vai perdendo o sentido ao passo em que as regras para se relacionar ficam mais flexíveis.

A traição atualmente é melhor aceita pela sociedade? Se sim, em que sentido?
O que mudou é a visão sobre a traição feminina, pois a traição masculina sempre foi mais permissível e até institucionalizada. O problema é que na prática e no geral as pessoas estão cada vez mais infiéis, mas na teoria continuam as mesmas. Isto significa que, se indagadas sobre o assunto, elas dizem uma coisa e fazem outra. Fidelidade, infidelidade e traição se tornam a pedra no sapato de muita gente, e, por isso mesmo, muitos optam por não participar mais de relações possessivas, preferindo a liberdade de ir e vir. Mesmo porque, o sexo, a amizade colorida, o ficar, se tornaram uma possibilidade independentemente do compromisso com alguém.

Há pesquisas que indicam mudanças de aceitação e rejeição com relação à infidelidade?

Há divisão de gêneros nesse sentido, ou seja, a infidelidade masculina ainda é mais aceita socialmente do que a feminina? Por quê?
Não conheço pesquisas sobre a aceitação ou rejeição da infidelidade. O que vemos é uma permissividade geral e crescente neste sentido. Hoje em dia homens e mulheres estão praticamente empatados ao pular a cerca das relações.

O senhor conhece obras de arte que de algum modo foram inspiradas na traição e infidelidade de seus criadores? Pode dar exemplos?
“Gabriela”, de Jorge Amado trata exaustivamente deste assunto, com uma crítica contundente ao machismo da época, que se estende até hoje.
O título “Ninguém é de ninguém”, da Zibia Gaspareto, fala por si.
São muitos livros do Paulo Coelho que tratam desta questão.
No teatro, Nelson Rodrigues foi expert em denunciar a fragilidade do conceito fidelidade.
Na dramaturgia televisiva fica difícil conceber uma obra que não trate do assunto e, quanto mais se falar de traição, mais público terá.
No cinema é bem parecido. Uma grande parte dos filmes inclui o tema.
A conclusão que podemos tirar é que este assunto ainda está muito mal resolvido por nossa sociedade, que não se entende e exige uma grande reflexão sobre isto.

Muitos artistas podem se valer da sensibilidade artística como bom argumento ou desculpa para trair? Por quê?
Pelo fato de serem muito criativos e terem dificuldade em seguir sempre no mesmo trilho do comportamento, disciplinando suas emoções, além de se permitirem pensar e agir diferentemente da normalidade, os artistas talvez se dêem mais permissão para praticar as relações abertas.

A traição foi ou pode ser utilizada também por alguns artistas e por parte da sociedade como modo de libertação das amarras sociais?
Ser fiel é ser digno de fé. Pensando assim, a fidelidade pode ser vista como a confiança de que o combinado será cumprido. Ora, se o combinado são relações livres, então os termos fidelidade, infidelidade e traição perdem o sentido. Aumenta o número de pessoas que ampliam sua consciência para pensar e agir de uma nova maneira, descolando-se dos padrões antigos de encarar a questão.

O casamento é realmente uma instituição fadada ao desaparecimento e as relações abertas podem realmente funcionar?

Já existem muitos autores que avistam a queda do tabu da fidelidade em alguns anos. Também existem grupos de pessoas que praticam o que denominam relações livres. Eles pregam o fim da hipocrisia que tem servido de suporte para os conceitos antigos. No geral, cresce o número de pessoas que assumem uma postura mais sincera neste sentido. Outras, ainda vêem graça em se dedicar somente a uma pessoa. Creio que cada um deva ter a prática amorosa que lhe seja autêntica e sincera, não importando o que é cobrado como politicamente correto ou não. O amadurecimento da sociedade virá da liberdade e da substituição da referência coletiva para assumir a  auto-referência. Alguns podem se deliciar com uma vida sexual liberada e diversa, outros desejam o envolvimento do afeto ou mesmo a exclusividade como forma de concentração da energia para relações mais profundas.

Obs.: O assunto é complexo e eu me permiti aqui expor somente algumas reflexões sobre o tema. Escrevi vários livros sobre o assunto, dentre eles “O amor na contramão”. Em meus blog “Relacionamento amoroso” você encontra meus textos mais recentes sobre o assunto. No site www.sergiosavian.com.br ofereço alguns programas para quem deseja acertar o passo consigo mesmo com relação ao modo de desenvolver as relações amorosas.

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