A lenda do demônio maldoso da paixão

Texto do livro Seminários sobre Análise de Sonhos de Carl G. Jung

Existe uma lenda judaica, bonita e desonrosa, do Demônio Maldoso da Paixão. Um homem velho muito piedoso e sábio, a quem Deus amava por ele ser tão bom, e que tinha meditado muito sobre a vida, compreendeu que todos os males da humanidade vêm do demônio da paixão.
Então ele prostrou-se diante do Senhor e implorou para que Ele removesse o Espírito da Paixão do mundo, e como ele era um homem velho e piedoso, o Senhor acatou seu desejo.
E com sempre acontecia quando ele havia realizado algum grande feito, o homem piedoso ficou muito feliz, e aquele noite, como de costume, ele entrou em seu belo jardim para desfrutar o perfume das rosas. O jardim parecia o de sempre, mas algo estava errado, o perfume não era bem o mesmo, algo estava faltando, alguma substância estava faltando, como um pão sem sal.
Ele pensou que poderia estar cansado, então pegou o seu copo dourado e encheu-o com um vinho antigo maravilhoso que tinha em sua adega, algo que nunca havia falhado antes. Mas desta vez estava sem sabor.
Então este homem sábio tinha em seu harém uma esposa jovem e muito bela, e seu último teste foi que quando a beijou, ela era como o vinho e o perfume, insípidos!
Assim ele subiu até o telhado novamente e contou ao Senhor o quão triste ele estava, e que ele temia haver cometido um erro ao desejar que o espírito da paixão fosse removido, e então ele implorou: “Você não poderia mandar de volta o Espírito Maligno da Paixão?”
E como ele era um homem muito devoto, Deus fez o que ele pediu. Então ele testou tudo de novo, dessa vez, nada foi ruim – as rosas tinham perfume maravilhoso, o vinho estava delicioso, e o beijo de sua esposa era mais doce do que jamais havia sido!

Sergio Savian é psicanalista clínico especializado em relacionamentos. saiba mais sobre seu trabalho no site www.sergiosavian.com.br