A dificuldade em estabelecer vínculo afetivo

Perguntas e respostas (entrevista com Sergio Savian para o Portal UOL)
A dificuldade em estabelecer vínculo afetivo pode ser considerada uma doença?
Podemos dizer que as pessoas que não estabelecem vínculos afetivos têm uma dificuldade originada na formação de sua personalidade. Elas possuem mecanismos para se defender do envolvimento que lhes parece muito ameaçador. Em algum momentos de suas vidas deixaram de confiar nos outros.

Quais características denunciam o problema?
São pessoas que se isolam, não têm paciência para conviver com as diferenças, muitas vezes têm vida sexual ativa, sem aprofundar-se nas relações. Falta-lhes paciência, tolerância ou mesmo humildade para conviver com intimidade.

O que leva uma pessoa a desenvolver isso? Medo de sofrer, de ceder, de ter que dividir o espaço, os momentos?
Estas pessoas estão fixadas em uma posição narcisista, e isto significa que vivem na ilusão de se bastar, de não precisar dos outros. Muitas vezes são hipersensíveis e têm medo de se machucar. Noutras, falta sensibilidade para a convivência íntima.

Uma pessoa que evita relacionar-se amorosamente pode ter problema em lidar com suas próprias emoções? Isso pode acontecer devido algum trauma como separação, traição?
Os relacionamentos na vida adulta somente vem a confirmar as questões bem ou mal resolvidas que tivemos na vida infantil. Nossos relacionamentos costumam acontecer como extensão das relações que tivemos com a família original. Uma criança que recebe amor, introjeta este sentimento, e na vida adulta, sente que tem muito a oferecer. Na relação com nossos familiares adquirimos hábitos comportamentais mais ou menos saudáveis. Ao analisarmos a história de alguém que não consegue se vincular afetivamente, encontraremos motivos que o fizeram se retrair.

Pessoas que não querem ter este tipo de vínculo tendem a se isolar, evitar qualquer contato (beijo, abraço, sexo), ou podem apenas apostar em relações casuais, que não estabelecem algum tipo de afeto?
É isso mesmo. Existem duas formas de estar sozinho. Uma delas é evitar totalmente o contato, outra é ficar com muita gente, descartando as pessoas antes mesmo de aprofundar a relação.

Podemos dizer que quem enfrenta este tipo de dificuldade nunca se apaixona? Ou pode se apaixonar, porém vai encontrar maneiras para fugir da relação?
Muitos nem chegam a se apaixonar, tamanha a defesa; outros, apaixonam-se com bastante facilidade, mas não conseguem ir adiante com a relação. Acionam mecanismos de defesa para escapar da intimidade. Inventam desculpas, racionalizam, acusam os outros, ficam chatas e assim por diante.

Isso pode ter origem devido à criação recebida em família?
Na primeira infância, até os 4 ou 6 meses de idade, não temos condições de enxergar a mãe como um ser completo, com suas qualidades e defeitos. Temos a fantasia de que ela possui tudo o que precisamos. Com o passar do tempo, nos damos conta que a mesma mãe que nos alimenta e nos cuida, também nos falta. Devido à imensa dependência e vulnerabilidade, desenvolvemos uma ansiedade paranóica, fantasiando a perda da mãe. A partir do segundo semestre de vida já temos a percepção de que a mãe não é perfeita e passamos a aceitá-la da forma que ela é. Pessoas que não conseguem se vincular são perfeccionistas, estão fixadas em uma posição infantil. Não entendem que ninguém é perfeito, nem mesmo os relacionamentos o são.

A timidez pode levar a isso? Qual a diferença entre timidez e dificuldade em estabelecer vínculo?
A timidez, a dificuldade de se comunicar, de se expressar, o excesso de preocupação consigo mesmo, a incapacidade de ver o outro do jeito que ele é, tudo isso pode levar ao isolamento, mas não é só isso. Existem pessoas bem articuladas que também não se vinculam. Estas têm outros motivos. Por exemplo, não conseguem juntar numa só pessoa as características que procura. Buscam por um ideal que não existe.

É possível tratar o problema? De que forma?
Sim. Por meio de uma boa análise, compreendendo a própria história e os fatores que o levaram a se defender tanto do amor, é possível mudar este padrão. É possível experimentar as relações de outra forma, diferente daquela que aprendeu em sua formação.

Qual é o maior desafio para enfrentar o problema: desenvolver confiança, lidar com as emoções, aprender a conviver com outro?
Tudo isso junto: confiança e entrega são fundamentais. Conviver e resolver com os conflitos, uma boa dose de generosidade, e principalmente o autoconhecimento, tudo isso conta.

Existem muitos casos diagnosticados? É um problema atual, das novas gerações?
Boa parte das pessoas que me procuram apresentam este problema. Os tempos atuais nos proporcionam muitas possibilidades de fuga, como é o caso do vício em internet, drogas, álcool, trabalho e outras compulsões que nos ocupam e nos desviam do contato com a realidade. Tudo isso nos afasta da intimidade com a gente mesmo e com os outros.

Sergio Savian – psicanalista especializado em relacionamentos (agende uma consulta presencial ou à distância; participe do Seminário sobre o amor)

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