A ameaça da bissexualidade

Entrevista de Sergio Savian para O Site Notícias  da TV/UOL

Aguinaldo Silva, autor de Império, tem explorado a bissexualidade dentro da relação protagonizada por Cláudio (José Mayer) e Leonardo (Klebber Toledo). Como Léo, após o fim do romance com o cerimonista, se envolve com Amanda (Adriana Birolli), e ela se apaixona por ele, nas redes sociais, muitas pessoas estão falando que isso é “cura gay”. Além do caso de Leo e Amanda, Xana (Ailton Graça), que se veste de mulher, passará a ter ciúmes de Naná (Viviane Araújo) e assumirá sua identidade masculina como Adalberto. Ele a pedirá em casamento, outro caso de inversão de homossexual para heterossexual na trama. Por isso, envio meus questionamentos. 

Qual sua opinião sobre o comportamento de Cláudio, que rompeu um romance de dez anos com Leonardo após ser “expulso do armário”, em amor à família? A personagem Beatriz (Suzy Rêgo), que aceita o bissexualismo do marido e declara seu apoio incondicional, existe ou não na vida real?
Apesar do amor que sentiam um pelo outro, Cláudio e Leonardo se separam como medida preventiva, por medo da exposição e consequente represália da sociedade que este relacionamento poderia provocar. Caso eles fossem afeminados, ninguém iria se opor, mas o fato de serem dois homens másculos ameaça muita gente que não suporta a ideia que este tipo de amor aconteça na realidade. Grande parte dos homossexuais não transparecem que o são: homens e mulheres que trabalham, têm família e levam uma vida normal. Esta é a verdade. Também é fato que algumas mulheres sabem da condição de seus maridos e os aceitam. Não é somente uma ficção.

Leonardo, que manteve um romance gay por muitos anos, de repente se descobre bissexual. Isso pode acontecer? Como explicar essa situação sem cair na “cura gay”?
Isso não tem nada a ver com cura gay. Para Freud nós não nascemos nem hetero nem homossexuais. Todos nós temos estas duas possibilidades. No desenvolvimento da sexualidade de cada um, dependendo dos pais e da família em que somos criados, uma dessas posições prepondera. O que acontece é que tanto a posição homossexual como a heterossexual podem estar recalcadas. Em outras palavras, podemos dizer que todo heterossexual tem dentro de si a possibilidade de sentir-se atraído pelo mesmo sexo e dentro de cada homossexual tem dentro de si a possibilidade de sentir-se atraído pelo sexo oposto. No fundo, tanto heteros como gays têm pavor do seu lado que está “dentro da armário”. Também existe a possibilidade de alguns se desenvolverem como bissexuais, uma vez que nenhum dos lados seja reprimido. O que mais presenciamos é um raciocínio simplista de que você ou é uma coisa ou é outra. 

Como explicar as atitudes dessas duas mulheres que sentem atração por homens gays? Também existem na vida real ?
São muitas as mulheres que se sentem atraídas por um homem gay. Isto pode ocorrer por alguns motivos. Um deles é a projeção de sua própria homossexualidade no outro. Para Carl Jung, cada mulher tem um aspecto masculino em seu interior que ele denominou “ânimus”. Ao escolher um homem para amar, algumas mulheres preferem um que seja parecido com seu homem interior, isto é, um homem bastante sensível.

 Xana já deixou no ar que tinha interesse em Elivaldo (Rafael Losso), mas vai se revelar “macho” e pedirá Naná em casamento. Qual seu ponto de vista diante desse personagem?
Apesar de seu jeito de mulher, Xana vive em conflito com sua sexualidade. Ele(a) não sai com nenhum homem e a pessoa com quem realmente se sente bem é Naná. Xana se sente atraído(a) por homens mas tem uma moral interna que não permite que o fato seja consumado. Mesmo que se case com Naná, em seu mundo interior sempre estará em cima do muro. Seu desejo não está na mesma direção de sua moral interna. Este é um dos aspectos da bissexualidade. 

Quando você vê esses comportamentos em transformações na novela, qual a sua reflexão sobre essa abordagem do autor?
Creio que o autor está sendo corajoso ao colocar o tema da bissexualidade para ser debatido a partir da história que conta. Para a sociedade fica mais fácil compartimentar a sexualidade, classificando-a de forma simplista, dividindo o mundo entre gays e não gays. Alias, esta é a visão do jornalista Theo Pereira, que não consegue entender seu amigo de infância, o Cláudio, que é bissexual.

 A militância GLBT condena muito a forma como os folhetins abordam causas gays. Agora, reclamam da promoção da “cura gay”. Na novela anterior, criticavam o namoro beijo do casal de lésbicas de Em Família. Essa discussão toda é benéfica para a causa?
Isso mostra uma limitação. Quem julga e condena os gays são pessoas desinformadas, mas os gays fazem, muitas vezes, o jogo que lhes foi imposto pelos moralistas, assumindo posições tão radicais e intolerantes quanto daqueles que os criticam.

Sergio Savian é psicanalista especializado em relacionamentos. saiba mais sobre seu trabalho no site www.sergiosavian.com.br